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Brasil - Europa: em fragmentos?

Brasil - Europa: em fragmentos?

Para Luc Vankrunkelsven, o Brasil é, aparentemente, uma fonte inesgotável de inspiração. Seu terceiro livro sobre o assunto acaba de ser publicado. Não se trata, é claro, de um guia de viagem – embora... ‑ mas novamente um livro engajado, que reúne fragmentos de suas experiências durante sua turnê de palestra. Naturalmente, o foco é o meio ambiente, a agricultura, o movimento social crítico. Porém, com um alcance maior, porque as crônicas partem de uma realidade mais ampla.

Até agora, asoja foi o tema central, mas parece que o tema se amplia cada vez mais expressamente para a oposição a “mono-”: monocultura na agricultura e em outros lugares, monopólios ou quase monopólios na economia. E, imediatamente, surge a questão de outro modelo ou paradigma econômico e social: com mais espaço para a base e um poder mais dividido ou compartilhado, com menor dependência das grandes potências, tais como o agronegócio, as grandes empresas transnacionais. Ou seja, outra visão sobre: Quem produz? Como e onde? Como a produção é comercializada? E quais são os objetivos subjacentes? “Uma economia em menor escala e mais próxima do povo”, é como Vankrunkelsven a chama. Mas o ponto de partida e de chegada é a agricultura, como ela está inserida na economia (capitalista) e na vida diária: como as pessoas comem; onde elas trabalham; como são tomadas as decisões políticas e quem tem o poder na sociedade. Um professor brasileiro atribuiu a Vankrunkelsven o papel de ‘semeador de dúvidas’ e ele também é chamado de ‘uma pedra no sapato’. Porém, ele não prega a revolução, com um ataque frontal, mas faz campanha pelo desenvolvimento de outras práticas; “além de suas práticas”, ele mesmo escreve, ou seja, que coexistam com as das grandes empresas.

Portanto, tal como o anterior, o livro é uma narrativa inicial. Vankrunkelsven viaja e vê as coisas acontecerem, ou encontrar pessoas que o sensibilizam. Que desencadeiam as especulações sobre o que há ‘por trás’ ou ‘por baixo’ dos fatos. Algumas vezes ele não se contem e uma observação evolui para uma análise mais ampla de um fenômeno. Assim, não é por acaso que o livro termina com uma dura análise da história recente da ração animal que contempla, também, a pecuária. É claro que o frei Vankrunkelsven tem empatia com os fracos, as vítimas, e por isso é lógico que o tom subjacente é, muitas vezes, o de indignação, que às vezes parece desespero, sem muitas reservas: o ‘inimigo’ está claramente à vista. Outras vezes, ele identifica as tendências que trazem esperança.

O que os leitores podem esperar? Obviamente Vankrunkelsven trata dos gargalos causados pelo cultivo da soja e pela monocultura, que são co-responsáveis pelo êxodo rural e urbanização, e de várias alternativas. Mas também da "adoração" ao "Rei carro e Imperador presunto", como ele os chama, dois outros símbolos da nossa sociedade. Isso inclui alternativas para as florestas de CO2, a dependência que os transgênicos criam, a resistência ao greenwashing (“a eco-poluição da língua” e “arquitetura fascista”. A questão dos agrocombustíveis (‘agro’ e não ‘bio’combustíveis) também é importante e os esforços de Lula para promover o Brasil como celeiro de alimentos e produtor de energia, não por coincidência uma das economias "emergentes", junto com a Rússia, Índia e China, países que são conhecidos pela sigla BRIC.

Esse é um lado da história. Ele também reconhece perspectivas: no cânhamo, como substituto de proteína, e nos benefícios das antigas culturas agrícolas, na biodiversidade, nos mercados de troca, em movimentos sociais alternativos nos quais todas as famílias se envolvem. E, não por coincidência, ele obviamente se refere ao papel que a espiritualidade deve desempenhar e ao papel da igreja desempenha, para o bem e para o mal ‑ quando ele comenta, por exemplo, que Monsanto está patrocinando a restauração de uma igreja.

A abordagem é, em grande medida, a de histórias de “interesse humano”. Observações que evoluem para análises. “Fragmentos” também lhe parece uma palavra adequada para a nossa visão de mundo: muitos desafios, a mesma quantidade de fragmentos, com o risco de uma não encontrarmos uma “solução integrada”. Ou será que toda solução integral é automaticamente totalitária? Segundo ele, cabe ao leitor desfragmentar os fragmentos, como num computador. Uma opção ousada em si, mas que é defensável. Que faz uma síntese a partir do zero, corre o risco de ser reducionista: tudo se reúne em uma grande síntese e, portanto, perdem-se de vista os detalhes, ou certos detalhes são ignorados quando eles não se encaixam na imagem. Com analistas o risco é a fragmentação: será que as pessoas ainda enxergam a questão central? Esse discurso parece caber melhor em um discurso pós-moderno: você recebe “fragmentos da vida”, sem que o autor se apresente como um visionário que entende de tudo. É claro que sempre existirão limitações: tanto a esquerda quanto a direita tem seus pontos cegos. Como ocorre com este livro: Luc Vankrunkelsven é um espectador seletivo, e talvez até mesmo um ‘espectador culpado [guilty bystander]’, como no título de um livro de Thomas Merton. Seja como for, Vankrunkelsven fornece informações e compaixão em crônicas soltas, que ele situa contra o pano de fundo de um contexto mais amplo, de acordo com seu estilo já aprovado.

Vale à pena ler o resultado. Se o grande público vai ler o livro, ainda permanece em dúvida, embora isso esteja mais relacionado com o conteúdo: geralmente não é fácil vender uma problemática. Aliás, em determinados momentos, o tom é quase patético (“Aborto Planetário”) e regularmente incisivo, mas isso é esperado de um livro crítico, é claro. Na edição em holandês, a inserção de palavras em português acrescenta cor local, mas às vezes o leitor sente falta de um esclarecimento. Talvez tivesse sido melhor reservar as notas de rodapé para referências e colocar os esclarecimentos no final das crônicas. Uma mini-introdução à geografia econômica do país teria sido útil, ainda que o leitor geralmente receba informações a cada capítulo, de forma espontânea.

Em suma, novamente um livro interessante, e provavelmente vai atrair principalmente aqueles que se interessam por agricultura e meio ambiente e já estão, em parte, conscientizados. Para os demais, provavelmente é um tanto específico, ainda que o gênero de texto certamente torna o tema bastante acessível.

Jan Glorieux

Título original da resenha: Uma análise em fragmentos - "Fragmentos da vida" no Brasil e na Bélgica

 

‘Brasil-Europa em fragmentos?’, Cefúria-Curitiba, 2010, 140 pp.

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