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Diálogos e debates

Aurora no campo. Soja diferente.

Aurora no campo. Soja diferente.

Este é o segundo livro sobre soja escrito pelo frei belga Luc Vankrunkelsven. Desta vez ele escreve sobre alternativas para a soja, tendo como pano de fundo ao livro anterior, ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano’. No primeiro livro, ele tratou do cultivo e consumo de soja, da utilização de soja em ração animal no hemisfério norte e do transporte e, principalmente, das conseqüências da produção e consumo de soja. Pois, para a ONG européia ‘Grupo de Trabalho por uma Agricultura Justa e Responsável (em holandês: Werkgroep voor een Rechtvaardige en Verantwoorde Landbouw – Wervel)’ soja é um dos temas importantes: ela exemplifica a relação entre os pontos de estrangulamento na agricultura no Sul e no Norte e o impacto ambiental no mundo todo. Junto com Wervel, Vankrunkelsven está em busca de alternativas.

Ambos os livros situam o problema da soja num contexto amplo, com abordagens do ponto de vista econômico, cultural, ambiental e outros. As crônicas estabelecem ligações entre política mundial e decisões locais; entre empresas transnacionais e agricultura local; entre consumo de carne e uso de veículos (‘estômago e motor’) e entre estas constatações e espiritualidade, cultura, ética. O novo livro enfoca – principalmente – a criatividade de agricultores e agricultoras e de consumidores, tanto no Brasil quanto na Europa, ‘além da soja’.

O importante é que o autor leva a novas ênfases, novas maneiras de pensar, novas perspectivas. O pano de fundo permanece o mesmo do livro anterior: ou seja, o problema. Enquanto a Europa o e Brasil estão dominados pela febre dos biocombustíveis, ele aponta as conseqüências da monocultura de cana-de-açúcar ou milho após a da soja. Detalhe picante: o governo brasileiro também apóia integralmente o biodiesel produzido a partir de, entre outros, a soja como uma solução para a agricultura familiar. Ou para o fato de que a energia ‘verde’ (renovável) e ‘pagamento de indulgências ecológicas’ desviam a atenção do consumo excessivo de energia que é a raiz do problema. Ou ainda: a subestimação da poluição com gás metano provocada pelo gado em comparação com o efeito do CO2

O tema central, porém, são as alternativas à soja ou, pelo menos, ao uso dado a ela. As plantas medicinais são uma das possibilidades. A agroindústria familiar é outra. O cultivo de bracatinga como alternativa ao pinus e eucalipto. Ou o policultivo, que praticamente nos obriga a abandonar o conceito ‘campo’: um agricultor trabalha uma área formada de bosque e campo aberto, cultiva ‘cará-aéreo’ tendo ao lado diversas variedades de milho, etc. A distância até um sistema agroflorestal não é muito grande, embora não seja exatamente a mesma coisa.

Ele também percorre desvios, sempre mostrando que – afinal – estão relacionados com o tema principal: uma nova visão de agricultura. Como quando trata de ‘tecnologia socialista’ versus capitalista, o que levanta a questão: uma agricultura em escala humana – como a agricultura familiar – poderia tornar-se novamente viável no futuro? Ou, no caso das plantas medicinais, as quais a indústria ‘química’ aparentemente também deseja controlar. Ou, ainda, da tilápia, uma espécie de peixe originária da América do Sul. Muitos leitores ficarão espantados ao saber que os peixes são alimentados com... esterco de porco.

Durante a leitura, o(a) leitor(a) europeu toma conhecimento da realidade brasileira e vice-versa, e ele(a) entra em contato – de maneira crítica – com outras culturas e outros costumes. Para muitos, certamente uma ampliação de seus horizontes: uma ‘espiadela’ em outros países.

 

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‘Aurora no campo. Soja diferente’ não é um trabalho acadêmico. Luc Vankrunkelsven analisa um problema com milhares de facetas, sempre partindo de suas próprias experiências na rua e de encontros, conferências: uma senhora pobre que, aparentemente, destrói uma flor; o embate de estilos no encontro de Ongs no evento paralelo à conferência oficial da FAO; as possibilidades de exploração de um novo reflorestamento de bracatinga, etc. Experiências bastante distintas; algumas desanimadoras, outras que nos enchem de ânimo.

Ele aprofunda estas experiências ligando estas observações, por um lado, com a questão da soja e, por outro lado, com dados econômicos, culturais, sociais e religiosos subjacentes. Ao fazê-lo, ele escreve como um ambientalista engajado, como uma pessoa sensível e, também, como cristão e religioso – muitas vezes uma combinação destes três – sem se esconder.

Assim surgem reportagens bastante pessoais, que se desenvolvem uma espécie de crônicas porque os fatos, as experiências e os encontros levam a uma série de reflexões envolvendo técnicas agrícolas ou referentes a justiça social, sobre meio ambiente e consumo, tanto na Bélgica quanto no Brasil. Isto porque estes fatos e fenômenos fazem parte de um contexto mais amplo. Nas reflexões, pessoas e objetos freqüentemente tornam-se símbolos. Como no encontro com um sem-teto carregando seus pertences num saco de ração para cães. Ele o leva a ponderações sociais (‘migalhas para os cães’) e a conclusão mais profunda e trágica de que o mundo é dominado pela religião ‘dinheiro’. Desta maneira, ele estimula o(a) leitor(a)a fazer seus próprios questionamentos e pensar de maneira diferente sobre temas variados, até mesmo sobre métodos de manifestação, sua própria informação, suas próprias escolhas na vida.

O ‘viés’ é claro: as grandes multinacionais e o capitalismo são os principais alvos das críticas. Metáforas um tanto sarcásticas, tais como ‘polvo’, ‘messias’, ‘templo’ são empregadas a torto e a direito. Ainda assim: Vankrunkelsven é honesta e se declara disposto a fazer as correções necessárias, como demonstra em sua interpretação de ‘contaminação’. O eucalipto não é denunciado gratuitamente: Vankrunkelsven aponta também sua função útil original enquanto espécie de regiões desérticas. Ou ainda: sua perspectiva da colonização resulta numa visão ponderada sobre o fenômeno no geral e no sonho de uma convivência harmônica entre agricultores – chamados, às vezes, de ‘colonos’ – e indígenas.

 

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Os textos já foram apelidados de ‘crônicas de soja’. Sua extensão e combinação de depoimento e reflexão num estilo incisivo tornam os textos compreensíveis – ou ‘prontos para consumo’, embora este termo soe como um palavrão no ambiente onde Wervel atua. Mas os textos também são consistentes: as afirmativas são baseadas em dados, referências a conferências e notas ao final de cada crônica. Por causa disso, às vezes se tornam difíceis de digerir, mas nunca tedioso. As informações tornam a leitura um pouco mais demorada, porém isso faz parte quando se está engajado, mas deseja, ao mesmo tempo, fornecer dados corretos.

O estilo é peculiar: em pouco staccato, pessoal e, em princípio, descomplicado. Isto está relacionado com a opção por apresentar um panorama caleidoscópico. Não uma única pintura com grande profundidade, mas uma colagem de esboços que chamam a atenção e abrem uma perspectiva.

No prefácio do livro, Altemir Trotelli – Coordenador Geral da Fetraf-Sul – destaca a relevância da reflexão e discussão dos temas apresentados na construção de alternativas ambientalmente e socialmente responsáveis para a agricultura familiar e na busca da soberania alimentar.

 

João Glorieux.

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